IMIGRAÇÃO ITALIANA

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Gente do Brasil

Só depois de 32 anos após o descobrimento do Brasil, com a criação das capitanias hereditárias, é que Portugal começou a colonização da nova terra, iniciando o que Darcy Ribeiro chamou de "o transplante de povos" que posteriormente sob a ação de um efetivo "caldeirão de misturas" formou nossa população. Inicialmente foram os portugueses e sua miscigenação com os índios. Em seguida, foram cerca de 4,5 milhões de negros trazidos da Africa e escravizados como os índios, agora em menor número, perduranto durante 3 séculos o trabalho escravo.


Imigrantes asssumem o trabalho dos escravos

A partir de 1870, na efervescência da campanha abolicionista e mesmo antes da completa abolição da escravatura em 1888 com a lei Áurea, o Brasil deu início ao que Eduardo Bueno chamou de "importação em massa" de imigrantes europeus e posteriormente asiáticos. De 1886 a 1914 cerca de 3 milhões de alemães, italianos, espanhóis, japoneses e árabes, entre quase 70 nacionalidades que aportaram no Brasil com a intenção de "fazer a América"!


A imigração italiana

Foram cerca de 900 mil italianos entre 1886 e 1900. Os primeiros colonos italianos a chegarem a partir de 1875, procedentes do Tirol e de Veneto, eram pequenos agricultores trazidos com a intenção clara de colonizar terras devolutas do sul do país. Devido esta política de colonização, os italianos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, tornaram-se pequenos proprietários e puderam trabalhar livremente, formando colônias que mais tarde se tornaram vilas e cidades.
Em São Paulo foi diferente; com o intuito de suprir a falta de mão-de-obra na lavoura do café do interior do Estado, o Governo subsidiou passagens incentivando a vinda de trabalhadores italianos da Lombardia, Mantova, Cremona, Calábria e Nápoles.
A crise pela qual a Itália passava mobilizava os operários e agricultores a procurar trabalho em outras regiões. O empobrecimento do camponês italiano do sul, devido à guerra pela Unificação do Estado Italiano (1860/70) e a nascente indústria que não conseguia assimilar o contingente de trabalhadores desempregados, facilitaram o serviço das companhias que arregimentavam trabalhadores em nome do Governo Imperial do Brasil.
No início as viagens eram feitas à vela e duravam cerca de 60 dias dependendo das condições climáticas. Já a bordo de navios a vapor, a viagem duravaem média 20 dias. Os imigrantes alojados em porões, ficavam à mercê de doenças contagiosas, havendo muitos óbitos durante o percurso.
Para receber o imigrante, em 1882 foi criada a hospedaria no bairro do Bom Retiro. Devido a problemas de epidemia e pouco espaço, foi inaugurada em 1887 a Hospedaria de Imigrantes no Brás. Concebida pela Sociedade Promotora de Imigração, a hospedaria chegou a receber 8 mil pessoas de uma única vez! O imigrante chegava principalmente pelo porto de Santos e subiam a serra nos trens da São Paulo Railway, desembarcando na estação da própria hospedaria. Era lá que, enquanto não celebravam seu contrato de trabalho, recebiam alojamento, assistência médica e alimentação.


Vida no campo

De posse de seu primeiro contrato de trabalho, o imigrante seguia para as fazendas no interior do estado onde eram assentados em colônias ou em núcleos coloniais. O trabalho era realizado por toda a família e quase sempre não sobrava tempo para o lazer nem para a educação. Alguns "barões do café" teimavam em tratar os imigrantes italianos como escravos, o que comflitava com suas convicções e ideais Anarquistas-Socialistas, comum na Europa de sua época, propiciando o surgimento de lideranças operárias Anarco-sindicalistas. Em sua maioria, após anos de trabalho, acabavam desiludidos e endividados. Muitos abandonaram o campo fugidos, voltando para a Itália ou se estabelecendo na Capital como operários ou artezãos na emergente indústria paulista; é desta época o surgimento de inúimeras comunidades ou bairros de estrangeiros.


Vida na cidade

A imigração contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento urbano: diversificação do comércio, incrementação das artes e ofícios, implantação industrial, enfim não havia atividade que os imigrantes não estivessem presentes. A presença italiana estava tão presente neste início de século XX em São Paulo que comumente era chamada de "a cidade dos italianos".


Influências

A contribuição destes imigrantes extrapolou as atividades profissionais; foi imensa a transformação na culinária, vestuário, língua, esportes, religião, brincadeiras infantis e canções, que repletas do saudosismo da terra natal, confortavam diante dos constrangimentos e humilhações que invariavelmente eram submetidos. Suas raízes culturais eram preservadas em todas as colônias, vilas operárias, agremiações, clubes e associações. Em São Paulo, nos bairros do Brás e do Bixiga, a cultura italiana está por toda a parte: nos santos de devoção (São Vito, N. S. Aquiropita), no time de futebol (Palestra Itália, hoje Palmeiras), nas cantinas (Cantina Roperto), nas festas típicas e na música (Radamés Gnattali, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone) destacando a apresentação em 1916 para a colônia italiana de Enrico Caruso no Teatro Municipal.


Bibliografia

  • História do Brasil - Eduardo Bueno - Folha de São Paulo - 1997.
  • Memorial do Imigrante - Museu da Imigração / Centro de Pesquisa e Documentação / Núcleo de Estudos e Tradições / Núcleo Histórico dos Transportes.
  • Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda.


A unificação Italiana

Após o colapso do Império Napoleônico em 1814 e 1815, grande parte da Península Itálica ficou sob o domínio austríaco. Passaram-se ainda cerca de 45 anos, para que surgisse uma Itália unificada, sob o reinado de Vitor Manuel.

Ao término do Congresso de Viena, a conferência de paz que se seguiu à derrota de Napoleão restaurou a antiga ordem conservadora; a Itália estava dividida sob diferentes domínios:

ao norte o Reino da Sardenha e Piemonte, o Reino Lombardo-Veneziano e os Ducados de Parma, Toscana (Florença), Módena e Luca;
no centro, os Estados da Igreja (Roma);
ao sul o Reino das Duas Sicílias;
no Adriático a Ístria e a Dalmácea;
Desejosos da unificação da pátria, muitos italianos formaram sociedades secretas. A mais conhecida era a "Carbonara", inspirada pelo iluminismo e ideais da Revolução Francesa.

Entre 1830 e 1833, foi instalado um movimento chamado "Risorgimento", liderado por Giuseppe Mazzine (preso em 1831 por advogar inflamadamente a rebelião e que passou no exílio quase o resto de sua vida) e Gioberti. O movimento contava com inúmeros adeptos apesar das perseguições dos austríacos. Não havia uma corrente única de pensamento: uns queriam a unificação em uma República, outros em uma confederação comandada pelo papa e outros ainda em uma Monarquia Constitucional. Essas divergências impediram por muito tempo uma união mais efetiva dos italianos e as tentativas foram sempre abafadas pelo absolutismo austríaco.

 

Carlos Alberto

O Reino da Sardenha ( que além da ilha de mesmo nome abrangia o Piemonte no continente) já havia se revoltado contra a Áustria em 1921, mas fracassara. No entanto, um importante papel na unificação italiana estava destinado a este reino. O rei Vitor Manuel I (ou Emanuel segundo alguns autores) foi obrigado a abdicar em favor de seu irmão Carlos Félix. Como este não tinha filhos e era o último descendente do ramo principal da Casa de Sabóia, a Igreja e o Estado se reuniram em Verona para designar o herdeiro do trono. O candidato escolhido foi Carlos Alberto, primo afastado do rei, pertencente ao ramo Sabóia-Carignano, casado com Maria Teresa e pai de Vitor Manuel (ver a Tragédia da Vila del Poggio Imperiale).

O rei Carlos Alberto foi coroado em 1831 e adotou uma forma de governo diferente dos demais: o parlamentarismo. Seguindo inclusive orientações do Papa Pio IX, que abolira o absolutismo nos Estados da Igreja, dando anistia aos condenados políticos, promulgou uma constituição liberal. Administrador capaz, reformou o sistema financeiro e reforçou o exército. Convicto da necessidade de independência face o domínio austriaco, o rei Carlos Alberto declarou guerra à Áustria e sem ajuda estrangeira conclamou os italianos a "fazer então por si mesmos". Mas os piemonteses tiveram que lutar sozinhos e sem ajuda da própria Itália, sendo derrotados em Custozza e Novara. As condições de paz eram humilhantes para serem aceitas e, acreditando que sua utilidade para o país havia terminado, Carlos Alberto abdicou em 23 de março de 1849 em favor de seu filho Vitor Manuel e se exilou em Portugal, vindo a morrer meses depois.


Vitor Manuel

Vitor Manuel II (ou Emanuel segundo alguns autores) subiu ao trono com 29 anos. Destemido na guerra, embora não tão bem dotado como governante, mostrou coragem ao rejeitar as imposições da Áustria para que revogasse a constituição de seu pai, embora esta atitude tenha lhe custado extensos territórios. Mas ao insistir em conceder anistia aos italianos que haviam se revoltado contra os austríacos, tornou-se um herói para seu povo, atraindo vários partidários de idéias unificadoras. Apesar da derrota de seu pai, seu reino crescia a cada dia em população e progresso, tornando-se o centro do movimento nacionalista.

Deve-se a consagração do reinado de Vitor Manuel II, como líder da unificação italiana, aos trabalhos do seu ministro, o Conde Camillo Benso di Cavour. Agricultor, homem de negócios bem sucedido e co-fundador do jornal "Il risorgimento" em 1847, Cavour assume o cargo em 1852, revelando-se um perfeito diplomata, estrategista e um administrador notável. Organizou o Piemonte do ponto de vista administrativo, agrícola, econômico e militar (captando simpatia da França e Inglaterra quando se aliou contra a Rússia na Guerra da Criméia). Sua importância na unificação se deve a duas frentes de trabalho: reconciliar as divergências entre as facções na Itália e convencer os outros países de que nada tinham a temer de uma Itália unida sob a antiga e respeitada Casa de Sabóia. Após a Guerra da Criméia, participa do Congresso de Paris onde consegue despertar o interesse das nações européias para a causa italiana.Assim contou com o auxílio da França em sua guerra contra a Áustria, vencida em Magente e Solferino. Napoleão III temendo a Prússia que se armava para uma possível guerra, retirou-se da luta em favor dos italianos. Foi então assinado o tratado de Villafranca onde a Lombardia passou para o Piemonte, mas Veneza continuou com os austríacos.


O Reino da Itália

Em 1860 os ducados de Módena, Parma, Lucca e Toscana realizam plebiscito anexando-se ao Piemonte. No sul, Giuseppe Garibaldi (o mesmo que lutara no Brasil na Guerra dos Farrapos) desembarca no Reino das Duas Sicilias com mil guerrilheiros que ficaram conhecidos como "os camisas vermelhas". Conquistam as Duas Sicilias, derrubam a monarquia Bourbon do trono de Nápoles e marcham para as terras de Pio IX. Ao término de 1860, os Estados da Igreja se uniram a Roma e com uma mistura de guerra e diplomacia, Cavour conseguia seu objetivo: em 17 de março de 1861 (para alguns autores 8 de fevereiro de 1861), foi proclamado o reino da Itália com Vitor Manuel II como seu monarca. Cavour morreria três meses depois!

Contudo, a unificação não estava completa, pois faltavam Roma e Veneza. Nesta mesma época a Prússia tentava formar a unidade alemã e entrou em guerra contra a Áustria. O Piemonte aliou-se à Prússia e venceram os austríacos, que no Tratado de Praga devolveram Veneza à Itália. Roma era aclamada para ser a capital, mas a cidade era sede universal da Igreja Católica. Além disso, existia um exército francês ocupando a cidade para não descontentar os católicos de seu país, que se opunham às intenções do parlamento italiano. Com a guerra franco-prussiana, a França teve de chamar seus exércitos de volta e, com a queda do segundo império francês, o rei da Itália invadiu e conquistou Roma em 1870. Foi instalada lá nova capital e embora o parlamento votasse a "Lei das Garantias" reconhecendo ao Papa suas prerrogativas, Pio IX e seus sucessores não reconheceram a lei em sinal de protesto, considerando-se prisioneiros no Vaticano. Tal situação só foi resolvida em 1929 pelo Tratado de Latrão que criava o Estado do Vaticano.


Tragédia da Vila del Poggio Imperiale

No final de 1822, Carlos Alberto, príncipe de Sabóia-Carignano, passava sua temporada de verão com a família na Villa del Poggio Imperiale, em Florença. Em 16 de setembro, uma ama entrou no quarto do filho do príncipe, Vitor Manuel (ou Emanuel segundo alguns autores) de 2 anos, com uma vela na intenção de afugentar insetos que pertubavam o seu sono. Ao se inclinar, a vela incendiou as rendas dos lençóis e foram tantos seus esforços para salvar a criança, que ficou gravemente ferida, morrendo semanas depois.

De acordo com o diário oficial da grande corte ducal de Florença, o pequeno príncipe se salvou com apenas queimaduras em três partes do corpo. Não houve mais notícias do príncipe durante quase um mês. A correspondência de Carlos Alberto revela que ele voltou para Florença em 20 de setembro, mas só foi registrado sua presença em Florença em 10 de outubro, assistindo a uma cerimônia na corte. Em 3 de outubro, uma dama de companhia de sua esposa Maria Teresa, relata em carta que a ama de Vitor Manuel, Teresa Zanotti Racca, estava se recuperando bem e viajaria com a família do príncipe no dia seguinte. O prefeito de Santo Spirito, aldeia em que se situava a vila, informou que o príncipe e sua família haviam concluído sua estadia de verão na vila na noite de 4 de outubro. Dois dias depois a ama entra em coma e morre em Florença. Por que motivo existe disparidade nas datas indicadas para o regresso ce Carlos Alberto à Florença?

Na semana que se seguiu, corriam por toda região, boatos de que o filho do príncipe morrera no incêndio e que fora substituido por outra criança: o filho ilegítimo de Gaetano Tiburzi, um açougueiro também conhecido por Maciaccia e de sua namorada Regina Bettini. Pouco depois do incêndio, Tiburzi casava com outra mulher e construía uma casa de 3 andares próximo à Porta Romana de Florença, por onde passava a estrada que levava a Villa del Poggio. Regina Bettini casa-se posteriormente com o irmão de Tiburzi, Pasquale. Em pouco tempo, o açougueiro tinha posses para subir uma segunda casa, iniciando assim uma série de investimentos em imóveis que atingiram 43 propriedades na época de sua morte em 1888. Ao longo dos anos, sustentou com conforto uma família com 17 filhos. Teria ele uma fonte oculta de rendimentos?

Quanto à ama que presumivelmente dera sua vida para salvar o príncipe, nem ela nem sua família receberam recompensas ou reconhecimento oficial pelo sacrifício. Rapidamente foram suprimidas todas as referências ao incêndio. Villa del Poggio Imperiale deixou de ser adequada para as férias reais de verão, transformando-se num colégio de freiras para meninas da aristocracia.

Os boatos, contudo, não desapareceram e acompanharam Vitor Manuel atá a sua morte em 1878. Massimo d'Azeglio, conselheiro de Vitor Manuel anterior a Cavour, confessou em 1866 a Gaspero Barbera, seu amigo e editor, que estava convencido de que o monarca seria mesmo filho do açougueiro toscano; Barbera publicou nas suas memórias, em 1883, "Os reis e filhos de reis são como cavalos ingleses de corrida: têm membros muito delicados. Mas Vitor Manuel, esse, tem braços de açougueiro".


Hino Nacional Italiano

"Hino Nacional Italiano "A Marcha Real Italiana" de 1860 - 1945. Este é o "Hino Nacional Italiano" que foi usado durante o auge da Migração em Massa da Italia. Para muitos de nós que somos decendentes diretos de imigrantes deste período, esta versão é mais familiar que a atual versão.